

"(...) O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
_O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
_São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito."
Florbela Espanca
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"(...) Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão."
Florbela Espanca
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"(...) Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda (...)"
Augusto dos Anjos
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"(...) A voz do céu pode vibrar sonora
ou do Inferno a sinistra sinfonia,
que num fundo de astral melancolia
minh'alma com a tu'alma goza e chora. (...)
Cruz e Souza
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" Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!..."
Alvares de Azevedo
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" Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...(...)"
Vinícius de Moraes
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"(...) Mas a idéia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz! (...)"
Antero de Quental
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- 01/11/2009 a 30/11/2009 _______________ _______________
- 01/10/2009 a 31/10/2009
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- 01/10/2006 a 31/10/2006

"Amar! Mas d' um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D' uma doida cabeça escandecida (...)"
Antero de Quental
_______________

" (...) Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão(...) "
Ariano Suassuna
_______________

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" (...) Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"
Florbela Espanca
_______________

"(...) Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !(...)"
Florbela Espanca
~

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?
Fernando Pessoa
~

~
Não espere me encontrar no texto, não me prenda, não busque no ar a minha forma, ainda que ali eu tenha dito que sou eu, ainda que eu precise que você acredite que me encontrou. Não me faça refém das asas que eu custei tanto a saber como usar, não me escravize no incomensurável outro, não tente me achar onde eu preciso mesmo é me perder.
Ticcia
~

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
Fernando Pessoa
~

Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
Natália Correia
~

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Anderson
~

Pudor
Vens, e não sonho mais
Quebra-se a onda do penedo austero.
E o mar recua, sem haver sinais
De que te quero.
Miguel Torga
~

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Fernando Pessoa
~

O mundo em silêncio e, em algum lugar, tua carne ainda ocupa o centro de mim, teu nome se reveza entre meus olhos e minha boca, sem que eu saiba que forma ele finalmente terá. Tem garras, o teu nome. Tem também um sumo que arde quando escala a garganta e me põe essa dor paralisante nas mãos. O pior em cada coisa é não saber se ensurdeceste à minha voz, o pior em tudo é pressentir que estás desertando de mim e que tudo seca, tudo murcha e se despetala em ausência. Sou o retrato bruto da dor, aqui posta de braços abertos à espera dos teus olhos. Sou eu mesma a dor refundada, delicadamente urdida sobre uma frágil tecitura de memória, imóvel e dócil, como só a tristeza pode compor ao corpo. Espero ínfima, mansa e imolada inseta na teia pela tua fome, ou teu abandono.
Ticcia
~

" Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é (...)"
Fernando Pessoa
~

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Clarice Lispector
~

Dorme enquanto eu velo... Deixa-me sonhar... Nada em mim é risonho. Quero-te para sonho, Não para te amar. A tua carne calma É fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços. Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser. Dorme, dorme. dorme, Vaga em teu sorrir... Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir.
Fernando Pessoa
~ Tito de Andréa ~ Quero o colo da mãe poesia, numa troca sem pudor, sem meias palavras, em tudo sou intensa. Ledalge ~ "(...) É o tempo, o tempo que leva a vida Fernando Pessoa ~ De canto e hora meu nada se enlouquece Salette Tavares ~ Se eu fosse apenas água ou vento, Cecilia Meireles ~ Ficou entre os meus dedos Adilson Rodrigueiro ~ O mundo em silêncio e, em algum lugar, tua carne ainda ocupa o centro de mim, teu nome se reveza entre meus olhos e minha boca, sem que eu saiba que forma ele finalmente terá. Tem garras, o teu nome. Tem também um sumo que arde quando escala a garganta e me põe essa dor paralisante nas mãos. O pior em cada coisa é não saber se ensurdeceste à minha voz, o pior em tudo é pressentir que estás desertando de mim e que tudo seca, tudo murcha e se despetala em ausência. Sou o retrato bruto da dor, aqui posta de braços abertos à espera dos teus olhos. Sou eu mesma a dor refundada, delicadamente urdida sobre uma frágil tecitura de memória, imóvel e dócil, como só a tristeza pode compor ao corpo. Espero ínfima, mansa e imolada inseta na teia pela tua fome, ou teu abandono. Ticcia ~ A memória voou da minha fronte. Cecília Meireles ~ Hoje escrevi um poema triste Mário Quintana ~ "(...) Amor é síntese Mário Quintana ~ "(...) Voltei para casa ~ Entra e tira o teu agasalho. Cumplicidades partilhadas ~ E eu, que tanto tremo na sua presença, Viviani Leite ~ Olhos postos na terra Eugénio de Andrade ~ "Permita que eu feche os meus olhos, Cecilia Meireles ~ "(...) Permite que eu volte o meu rosto Cecília Meireles ~ Restitui-te na minha memória, por dentro das flores! Cecilia Meireles ~ Quando passearemos de mãos enlaçadas sob as árvores? E parados face a face com o abraço subindo, lento e envolvente, da cintura ao peito e aos ombros... Quero sentir-te estremecer da terna expectativa,bem junto a mim, do desejar não querendo, vendo nos teus olhos o contrário do que a tua boca fala. Pois te digo: gosto por demais de ti para me render ao trágico significado da verdade do que dizes. Repete, repete à exaustão a recusa suprema. Não adianta , meu amor! Até à morte, serão somente palavras que não desfazem a ilusão. Só após ela se tornarão numa realidade que então não terá mais importância. Maria Branco ~ violetas Adelaide Amorim ~ Dizeis ser possível sentir ciúmes sem ter jamais amado? Sim, é possível, pois existem ciúmes de tão ruim origem que são como abortados filhos do mais cruel rancor. Calderón ~ Canto[te] Quero cantar-te todos os pássaros do céu e todas as borboletas do canteiro onde brotam as flores que cultivamos juntos. Cumplicidades partilhadas ~ "(...) faz de conta que ela nao estava chorando por dentro - Clarice Lispector ~ É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas, teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos... Mário Quintana ~ Queira me habitar onde eu me escondo ßorbo ~ E ainda dançarei mil vezes para te fazer sorrir... ßorbo ~ Te amo porque te amo... ßorbo ~ E perdida no desejo de ser tua ßorbo ~ Amar, é a vontade de estar perto, se longe Vinícius de Morais ~ Queres ir-te embora, mas tu não me levas, Moldavos O-Zone ~ "Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos Dante Alighieri ~ "Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, Mário Quintana ~ Debruço-me na sua ausência como se o vazio dotado fosse de ombros largos, cor, calor e pudesse me ouvir ao relento roçar o ponto mais sensível da imensa falta que você faz. Antônio Carlos Mattos ~ Amor meu, desejos vãos, somos nós, nessa vastidão imensa! E por ser mulher em devaneios vivo. ßorbo ~ "(...) Pobre de quem vem perguntando David Mourão ~ "(...) tu irás e encostarás a tua face em outra face. Vinícios de Morais ~ "(...) Canto porque o amor apetece. Eugénio de Andrade ~ "(...) Embora tenha o sol para me alumiar Bhartrhari ~ "(...) Num deserto sem água Sophia de Mello Breyner Andresen ~ _______________

"(...) Mas não era isso que eu queria te falar, não.
Não era isso que eu tinha hoje pra te dar. Então se sente aqui do meu lado, e abre as orelhas, olhos e narinas.
Que o que eu tinha pra te contar eu comecei a contar antes de você chegar, e você pegou a história pela metade...
Que o que eu queria te dar de presente eu dei pro vento.
Que o que você perdeu você acha ali, debaixo daquele pano, debaixo daquele pano ali.(...)"

Que chora e choro na noite triste.
É a mágoa, a queixa mal definida
De quanto existe, só porque existe."
neste espanto de ver e de não ser
e na pergunta a resposta se empobrece
sem luz de outra manhã, o acontecer.
No turbilhão do pequeno
o breve esquece
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida! 
Como um espólio do sentimento
A sensação dos seus cabelos
Meio grisalhos
Na última noite
Que nos amamos
A que viemos seres humanos?
Se o amor que nos distingue
Como um estorvo em nós se extingue?

Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão? (...)
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor."
final da madrugada.
Abracei o travesseiro.
Falei baixinho com ele:
-Vamos ver quem
dorme primeiro? "
Rosa Pena
Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença, conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez em que me encontro.
Os troncos que pus na lareira riem-se de mim e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles, aquecer-me-ão o corpo e este o coração.
Deixa-me adormecer assim no teu regaço para que sonhe o que aqui te conto.
Logo eu, que me defino em desejos de sua pele,
Eu, que tanto creio na tua passagem dentro de mim.
Me pego agora me imaginando na ponta de tua língua,
Que põe cacos de mim, e cria delírios de sabores vários,
Minha barriga gela, só de pensar!!!
Meu coração pulsa mais forte, é o desejo que vem quando te penso.
E agora, o que faço já que estás tão longe?
Fico a tua espera te desejando cada vez mais e a cada segundo ?
Ou sumo no mundo pra te encontrar talvez em alguma esquina?
Ah, vou tomar um banho de água fria, pra ver se o desejo que tanto tenho,
Se esvai com a água pelo ralo.
Já que não te tenho, simplesmente me calo...
tu virás, no ritmo da própria primavera
e como as flores e os animais
abrírás as mãos
de quem te espera.
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te(...)"
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo."

Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis.

lá fora chove
e nada do que digo
é o que queria dizer
: estou imóvel
e tenho a pressa de uma presa sem saída
ante o felino
eternamente a preparar
o bote sem desejo
– e a agonia poreja das paredes
asas coladas
voltamos ao casulo
viscosos seres
unidos no tormento
de um antigo momento que não volta
além dessas janelas
a vida comemora seus enigmas
quatro estações e luas
e o vento vibra
por suas ruas e praças
em curva infiltração
apodrecemos
violetas
o caule a desfazer-se

Quero cantar-te todas as ondas do mar e todas as dunas que cresceram sobre nós quando dormimos na praia nus e saciados.
Quero cantar-te sem palavras supérfluas todas as odes ao amor de todos os poetas que por ele morreram.
E ao adormeceres ao som do meu canto que o teu sonho se não distinga da minha realidade futura.
pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado;
ela saíra agora da voracidade de viver.
"Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária"
"(...) mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar, a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadas não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Faz desse lugar só seu no mundo
Quero hospedar-me em você.
E no azul, cor da saudade
no azul, cor do amor
entre compassos e descompassos
Da violeta lembrança e dos vermelhos pesares
Haverá sempre a esperança
de nunca mais fugires...
Nunca mais a dor. 
Te esperarei mil noites...
Te guardarei mil vezes em meio seio...
Basta te achegares a mim, e pedir.
Dança!
Espera!
Guarda-me!
E cá estarei a te amar 
E se te amo assim tão plena e simplesmente
É porque não encontrei outra forma de te amar
Que não fosse te amar perdidamente.
Ergo os braços tentando te alcançar
Mas encontro o vazio em teu lugar..
Tela branca... fria.. inerte...
O vazio de tua ausência...
E assim te afago simplesmente
Nos meus sonhos de te amar
Doce... pura.. encandescente.
e mais perto, se perto.
Não, não me levas, não, não me levas.
A tua cara e o amor sob a tília
Lembram-me os teus olhos.
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível. (...) "
pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."

Criando e re-criando como em um caleidoscópio
os mais lindos sonhos de amor.
Arremessando alto...
Arrebentando grilhões...
superando barreiras...
transpondo distâncias inaceitáveis aos comuns mortais.
Porque sou Mulher !
Porque vivo em ti, e por ti!
à pedra esquiva das esquinas
a voz e a face dessa amante
de que não restam senão cinzas!
Pobre do outro a quem o gelo
daquele encontro tão malsão
nem conseguiu arrefece-lo!
— Pobres de tantos, sem o selo
de garantia da ilusão! (...)"
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. (...)" 
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados. (...)"
e a lua e as estrelas depois do sol se pôr
sem a luz dos teus olhos negros
é sempre negra a noite em meu redor (...)"
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. (...)"
Mãos Dadas
"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente."
Carlos Drummond de Andrade

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Silêncio

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...
Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!
Estou junto de ti e não me vês...
quantas vezes no livro que tu lês
meu olhar se pousou e se perdeu!
Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa...Escuta!...Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!...Abre!Sou eu!...
-Florbela Espanca-

"Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti " (ALEXANDRE O'NEILL)
QUEM CHORA NA NOITE?

Lagrimas acordam a alma da noite,
nublando por instantes as estrelas...
Quem triste assim haverá de verte-las
tinindo o silencio como um açoite?
Que murmúrios já entristecem a lua
que se esconde atrás da nuvem escura...
Quem há de ser a frágil criatura
que despe a dor de forma assim tão crua?
Até o vento cala o seu gemido
entregue à emoção desse lamento,
que chora a dor, talvez, duma partida...
Ou quem sabe o cansaço com a vida
fez brotar esse canto tão cinzento,
tristonho, sem alento e tão sentido...
-Zélia Nicolodi-
NÃO É MAIS...

(...)recolho as asas, aborto o vôo...
quebro esquinas sem olhar para trás.
os girassóis já secaram, gastaram-se todas as letras,
a fonte emudeceu... foi ontem, hoje, já não é mais.
-Zelia Nicolodi-

Soneto do Amor Perdido

Como dormir sem seu calor
se minha cama fria insiste
em me acordar e logo desiste
de me acolher sem o seu amor?
Ando pela casa escura e silente
procurando algum carinho e consolo,
tentando esquecer o quanto fui tolo,
tentando apagar suas lembranças da mente.
Afinal pelo sono sou vencido
e enquanto dura do sonho o encanto
possuo tudo o que me é querido.
O dia logo amanhece e me levanto,
tudo o que era meu tendo perdido,
resta-me apenas o eco do meu pranto.
-Lupércio Mundim-
Como te amo?

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte
-Elizabeth Barrett Browning-
Versos inscritos numa taça feita de um crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
-Lord Byron-


Soneto da hora final

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
-Vinicius de Moraes - Montevidéu, 07.1960- In Livro de Sonetos- In Poesia completa e prosa: “A lua de Montevidéu”-
Esquecimento

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!
-Florbela Espanca-
Amor de verão

Lembro que à flor da água o seu cabelo
Divagava ao vaivém de cada onda
Envolvendo-lhe o rosto, qual Gioconda
Revelando-lhe os traços com desvelo
E ficavam-me os olhos deslumbrados
Perdidos na marmórea placidez
De um colo que descia em languidez
Escoltado por dois seios nacarados
E na visão salgada imaginava
Que essa Vênus que o mar acariciava
Retribuiria um dia aquele amor
Que em cada tarde ali mais me crescia
Perfumado de cheiros de maresia
Encantado de sol e de calor
-Eugénio de Sá-
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£öst ïn £ove
╚╚╚══─ﻼჱﻼ ¸ .*՞ჱﻍ՞ﻺ՞ﻍჱ՞*.¸ﻼჱﻼ─══╝╝╝

A UM LIVRO

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!
Leio-o, e folheio, assim, toda a minha alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! ...
Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...
- Florbela Espanca-

Apenas um soneto

O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.
Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
fez-se névoa a palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.
Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição
por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.
[Luís Filipe de Castro Mendes, Modos de Música]

Ó como a primavera madrugou! Tudo desperta em derredor: a vida Sorris. E cismas... Que desdém o teu! Que louco eu sou! Perdoa, Amor, não era [Correia de Oliveira]
Olha esses campos: como vem garrida!
- Maria, vê! Não sejas distraída...
Que belo sol e que feliz eu sou!
acorda, e traz um ar de quem sonhou...
- Mas tu não vês! Que pena, Amor! passou
uma andorinha, e lá se vai, perdida...
E eu fui chamar-te: - Vem! Que lindo céu!
É tudo vôo, e canto, e beijo, e graças... -
que tu viesses ver a primavera.
Ela é que fica a ver-te, quando passas
"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento excla-mações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.!" Carlos Drummond de Andrade

AMOR VIVO

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos-
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
[Antero De Quental, Sonetos Completos ]
Canção grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada
Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão
Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste
Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão
[Florbela Espanca]
Para Sempre

Ah! para sempre! para sempre! Agora
não nos separaremos nem um dia...
Nunca mais, nunca mais, nesta harmonia
das nossas almas de divina aurora.
A voz do céu pode vibrar sonora
ou do Inferno a sinistra sinfonia,
que num fundo de astral melancolia
minh'alma com a tu'alma goza e chora.
Para sempre está feito o augusto pacto!
Cegos serenos do celeste tato,
do Sonho envoltos na estrelada rede,
E perdidas, perdidas no Infinito
as nossas almas, no clarão bendito,
hão de enfim saciar toda esta sede ...
[Cruz e Souza]


Perdição

Corpo que rasga a noite e vai deixando
atrás de si a luz da madrugada,
assim te desenhei em sonhos, quando
além dos sonhos não havia nada.
Fogueira que recusa o lume brando
das convenções e afronta a encruzilhada
dos dias, tal um anjo iluminando
tudo em redor ao brilho de uma espada,
Eis como te quis ver, antes que fosses
um rosto e sobretudo um coração,
uns olhos claros e uns lábios doces
E eu me perdesse em ti como se não
houvesse mundo além do que te trouxe
à minha inebriante perdição.
[Torquato da Luz]
Esquecimento

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!
[Florbela Espanca]
MUDEZ

Quando por fim voltares, traz no olhar
a nesga de areal onde algum dia
te encontrei entre a espuma e a maresia,
passeando a surpresa de haver mar.
Traz também nos cabelos o luar
e deixa que o veneno da poesia
nos envenene aos dois em sintonia,
como exige o mistério do lugar.
Talvez assim eu possa finalmente
segredar-te as palavras que não soube
dizer-te no momento em que te vi
pela primeira vez e, de repente,
o mundo foi tão grande que não coube
na minha voz e logo emudeci.
[Torquato da Luz]
"Quando a minha mente está calma, eu acesso uma confiança que é descanso e proteção.
Uma fé genuína na preciosidade da vida.
Sinto que tudo em mim se reorganiza, silenciosamente, o tempo todo.
Que isso tem mais a ver com o meu olhar, com a natureza das sementes que rego, do que eu possa perceber.
Minha expectativa, tantas vezes ansiosa, de que as coisas sejam diferentes, dá lugar à certeza tranqüila de que, naquele momento, tudo está onde pode estar.
Em vez de sofrer pelas modificações que ainda não consigo, eu me sinto grato pelas mudanças que já realizei.
E relaxo."[*caipira®*]

Os Versos Que te Fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos…
Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!
A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
Tortura

Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento,
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…
Sonhar um verso d’alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!…
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca - Livro de Mágoas
"O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque." (Madre Teresa de Caucutá)

Tarde

Partiste no explendor da mocidade,
E esperei que voltasses novamente.
Escrevias dizendo: _Brevemente..._,
E esperei uma longa eternidade.
Anos depois tu voltas, finalmente;
E a mim mesmo pergunto se é verdade.
Porque sinto mais viva esta saudade
Do que no tempo em que estiveste ausente
Em vez d'essa alegria tão sonhada,
Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada.
E cada qual de nós ficou mais triste.
Adivinhaste... e eu adivinhei:
Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_
E eu só te sei dizer: _Porque partiste?
( Espínola de Mendonça –1891-1944 )
A Minha Dor
A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural
Os sinos tem dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm som funeral
Ao bater horas no correr dos dias
A minha dor é um convento... Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento onde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro
E ninguém ouve... Ninguém vê... Ninguém.
-Florbela Espanca -
Objeto

Faça de mim aquilo que quiseres.
Sacie sua carne, seus desejos.
Sua intenção seja qual lá tiveres,
Minha hora é submissa a seus ensejos.
Mas por favor, aquilo que me deres,
Não conte a seus amores andarejos.
Não sabes nunca o quanto que me feres,
Sair contando a todos de meus beijos.
Sei que de seu amor sou dependente.
E a esta inquietude eu não me nego.
Pois quando quis fugir vi claramente.
Que quando mais fugia, menos me encontrava
E a fuga tornava meu olhar tão cego,
Que mais dependente deste amor ficava...
-Jenário de Fátima-
Hipótese II
e se eu amasse as asas
que beauvoir nos deu
dentro do pássaro sartriano?
(poema inédito)
Escrito por Linaldo Guedes

SONETO DA AUSÊNCIA MATERNA
Eu trago na memória a poesia
Na qual me comovia o baixo astral
Do pobre autor, que nela descrevia
muita dor pela ausência maternal.
Era feroz a dor que ele sentia!...
Causava-lhe esta ausência tanto mal
Que sua vida se tornou sombria,
Sua aparência, débil e espectral.
E, jovem, eu me punha a perguntar:
Como podia o vate suportar
O peso -a cruz que sobre os ombros tinha?
Agora, a mesma coisa, a mim, pergunto
Pois, àquele poeta, eu sigo junto.
A dor da poesia é, hoje, minha.
-Claudio Camargo Martins-
Soneto para a Mamãe

Por às vezes do lodo nascer
Uma bela e perfumada flor
Fruto exclusivo da dor
Pensa-se a poesia ser.
Traduzir expressão mais sentida
A tristeza faz o poeta?
Poema maior como meta
Exprime o gozo da vida.
És minha mãe, heroína!
E terás em tua sina
Do meu filial coração...
Quero que saibas agora
Sempre de mim, em penhora
O amor e a gratidão!
-AD-
À minha querida Mãe

Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde nasci.
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.
-Fernando Pessoa-
(Tinha sete anos quando dedicou esta quadra à Mãe)

"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim".
-S. Freud-

“ A RUA DOS CATAVENTOS ”
“Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . . ”
Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994 -
“Saudades de um cata-vento”
É para o desconhecido, que a vida caminha
Bebendo nostalgia ouço o eco dos passos
Silente vou noite adentro, ferida só minha
A fluência das horas seguem mesmo compasso
Néscios sonhos fortalecem esse faz-de-conta
Sob a refutação dessa saudade dorida
Presente selado de lembranças sem conta
Trazem o choro brando, no manancial da vida
Guardo dentro, sentidos melancólicos, confusos
Que o tempo, faz vir a tona, algoz e oponente
A tais sentimentos digo amem, selo o presente.
Calam-se as palavras, diante dos sonhos obtusos
Densas lágrimas eternizam o discurso cinzento
Magia que se refaz nas memórias de um cata-vento.
-Glória Salles-
“ A RUA DOS CATAVENTOS ”
“ É a mesma a ruazinha sossegada.
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!
Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...
Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...
Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: - Alegrias - Risos
Depois do Circo já ter ido embora!... ”
-Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994-


Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…
A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…
O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…
O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…
[Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917]
Pobre Amor

Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!
Que te não enterneça esta loucura,
Que te não mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!
Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!
[Aluízio Azevedo]

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,(...)
-Fernando Pessoa-

O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.
Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!
Um dia foi-se e não voltou… Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…
Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!
-Auta de Souza-
~ Soneto 30 ~

Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,
Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento
- William Shakespeare -
"Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
(Clarice Lispector )

Realidade

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho
E a minha rubra boca apaixonada
Teve frescura pálida do linho
Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci
Tens sido vida fora do meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...
[Florbela Espanca]
Enquanto quis Fortuna…

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus versos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos!
[Luís Vaz de Camões]
Parte: não te separas!

Parte: não te separas! Que jamais
Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante
Juntos dois corações batem iguais.
Não ficarei mais só. Nem nunca mais
Dona de mim, a mão, quando a levante
Deixará de sentir o toque amante
Da tua, - ao que fugi. Parte: não sais!
Como o vinho, que às uvas donde flui
Deve saber, é quanto faço e quanto
Sonho, que assim também todo te inclui
A ti, amor! minha outra vida, pois
Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.
[Elizabeth Barrett Browning]




O teu vulto ficou na lembrança guardado,
vivo, por muitas horas!... e em meus olhos baços
Fitei-te – como alguém que ansioso e torturado
Tentasse inutilmente reavivar teus traços...
Num relance te vi – depois, quase irritado
Fugi, - e reparei que ao marcar os meus passos
ia a dizer teu nome e a ver por todo lado
o teu vulto... o teu rosto... e o clarão dos teus braços!
Talvez eu faça mal em querer ser sincero,
censurarás – quem sabe? Essa minha ousadia,
e pensarás até que minto, e que exagero...
Ou dirás, que eu falar-te nesse tom, não devo,
que o que escrevo é infantil e absurdo, é fantasia,
e afinal tens razão... nem sei por que te escrevo!
-J.G. de Araujo Jorge -extraído do livro
"Meu Céu Interior", 1ª edição, setembro,1934.-

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
