Os Versos Que te Fiz 
Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer. Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder… Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer! Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda… Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz! Amo-te tanto! E nunca te beijei… E nesse beijo, amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz! Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade O Nosso Mundo 
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos Como um divino vinho de Falerno! Poisando em ti o meu amor eterno Como poisam as folhas sobre os lagos… Os meus sonhos agora são mais vagos… O teu olhar em mim, hoje, é mais terno… E a Vida já não é o rubro inferno Todo fantasmas tristes e pressagos! A vida, meu Amor, quer vivê-la! Na mesma taça erguida em tuas mãos, Bocas unidas hemos de bebê-la! Que importa o mundo e as ilusões defuntas?… Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?… O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!… Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade Tortura 
Tirar dentro do peito a emoção, A lúcida verdade, o sentimento, - E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!… Sonhar um verso d’alto pensamento, E puro como um ritmo de oração! - E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento!… São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto! Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!! Florbela Espanca - Livro de Mágoas "O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque." (Madre Teresa de Caucutá)
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 00h06
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Tarde 
Partiste no explendor da mocidade, E esperei que voltasses novamente. Escrevias dizendo: _Brevemente..._, E esperei uma longa eternidade.
Anos depois tu voltas, finalmente; E a mim mesmo pergunto se é verdade. Porque sinto mais viva esta saudade Do que no tempo em que estiveste ausente
Em vez d'essa alegria tão sonhada, Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada. E cada qual de nós ficou mais triste.
Adivinhaste... e eu adivinhei: Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_ E eu só te sei dizer: _Porque partiste? ( Espínola de Mendonça –1891-1944 )
A Minha Dor 
A minha dor é um convento ideal Cheio de claustros, sombras, arcarias Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas dum requinte escultural
Os sinos tem dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal... E todos têm som funeral Ao bater horas no correr dos dias
A minha dor é um convento... Há lírios Dum roxo macerado de martírios, Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento onde eu moro, Noites e dias rezo e grito e choro E ninguém ouve... Ninguém vê... Ninguém. -Florbela Espanca - Objeto 
Faça de mim aquilo que quiseres. Sacie sua carne, seus desejos. Sua intenção seja qual lá tiveres, Minha hora é submissa a seus ensejos.
Mas por favor, aquilo que me deres, Não conte a seus amores andarejos. Não sabes nunca o quanto que me feres, Sair contando a todos de meus beijos.
Sei que de seu amor sou dependente. E a esta inquietude eu não me nego. Pois quando quis fugir vi claramente.
Que quando mais fugia, menos me encontrava E a fuga tornava meu olhar tão cego, Que mais dependente deste amor ficava...
-Jenário de Fátima- Hipótese II
e se eu amasse as asas que beauvoir nos deu dentro do pássaro sartriano? (poema inédito) Escrito por Linaldo Guedes
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 20h45
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SONETO DA AUSÊNCIA MATERNA 
Eu trago na memória a poesia Na qual me comovia o baixo astral Do pobre autor, que nela descrevia muita dor pela ausência maternal. Era feroz a dor que ele sentia!... Causava-lhe esta ausência tanto mal Que sua vida se tornou sombria, Sua aparência, débil e espectral. E, jovem, eu me punha a perguntar: Como podia o vate suportar O peso -a cruz que sobre os ombros tinha? Agora, a mesma coisa, a mim, pergunto Pois, àquele poeta, eu sigo junto. A dor da poesia é, hoje, minha. -Claudio Camargo Martins- Soneto para a Mamãe 
Por às vezes do lodo nascer Uma bela e perfumada flor Fruto exclusivo da dor Pensa-se a poesia ser. Traduzir expressão mais sentida A tristeza faz o poeta? Poema maior como meta Exprime o gozo da vida. És minha mãe, heroína! E terás em tua sina Do meu filial coração... Quero que saibas agora Sempre de mim, em penhora O amor e a gratidão! -AD- À minha querida Mãe 
Eis-me aqui em Portugal Nas terras onde nasci. Por muito que goste delas Ainda gosto mais de ti. -Fernando Pessoa- (Tinha sete anos quando dedicou esta quadra à Mãe) 
"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim". -S. Freud-
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 10h37
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“ A RUA DOS CATAVENTOS ”
 “Na minha rua há um menininho doente. Enquanto os outros partem para a escola, Junto à janela, sonhadoramente, Ele ouve o sapateiro bater sola. Ouve também o carpinteiro, em frente, Que uma canção napolitana engrola. E pouco a pouco, gradativamente, O sofrimento que ele tem se evola. . . Mas nesta rua há um operário triste: Não canta nada na manhã sonora E o menino nem sonha que ele existe. Ele trabalha silenciosamente. . . E está compondo este soneto agora, Pra alminha boa do menino doente. . . ” Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994 - “Saudades de um cata-vento”
É para o desconhecido, que a vida caminha Bebendo nostalgia ouço o eco dos passos Silente vou noite adentro, ferida só minha A fluência das horas seguem mesmo compasso Néscios sonhos fortalecem esse faz-de-conta Sob a refutação dessa saudade dorida Presente selado de lembranças sem conta Trazem o choro brando, no manancial da vida Guardo dentro, sentidos melancólicos, confusos Que o tempo, faz vir a tona, algoz e oponente A tais sentimentos digo amem, selo o presente. Calam-se as palavras, diante dos sonhos obtusos Densas lágrimas eternizam o discurso cinzento Magia que se refaz nas memórias de um cata-vento. -Glória Salles- “ A RUA DOS CATAVENTOS ”

“ É a mesma a ruazinha sossegada. Com as velhas rondas e as canções de outrora... E os meus lindos pregões da madrugada Passam cantando ruazinha em fora!
Mas parece que a luz está cansada... E, não sei como, tudo tem, agora, Essa tonalidade amarelada Dos cartazes que o tempo descolora... Sim, desses cartazes ante os quais Nós às vezes paramos, indecisos... Mas para quê?... Se não adiantam mais!... Pobres cartazes por aí afora Que inda anunciam: - Alegrias - Risos Depois do Circo já ter ido embora!... ”
-Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994-

- Postado por: ßorbolet@ @zul às 21h49
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Noivado Estranho 
O luar branco, um riso de Jesus, Inunda a minha rua toda inteira, E a Noite é uma flor de laranjeira A sacudir as pétalas de luz… A luar é uma lenda de balada Das que avozinhas contam à lareira, E a Noite é uma flor de laranjeira Que jaz na minha rua desfolhada… O Luar vem cansado, vem de longe, Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira Que enlouqueceu d´amor o pobre monge… O luar empalidece de cansado… E a noite é uma flor de laranjeira A perfumar o místico noivado!… [Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917] Pobre Amor 
Calcula, minha amiga, que tortura! Amo-te muito e muito, e, todavia, Preferira morrer a ver-te um dia Merecer o labéu de esposa impura! Que te não enterneça esta loucura, Que te não mova nunca esta agonia, Que eu muito sofra porque és casta e pura, Que, se o não foras, quanto eu sofreria! Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses Com teus beijos de amor, meus lábios tristes, Com teus beijos de amor, as minhas faces! Persiste na moral em que persistes. Ah! Quanto eu sofreria se pecasses, Mas quanto sofro mais porque resistes! [Aluízio Azevedo] 
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,(...) -Fernando Pessoa-
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h35
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O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia De manhãzinha, alegre e prazenteiro, Beijando as brancas flores de um canteiro No meu jardim - a pátria da ambrosia. Pequeno e lindo, só me parecia Que era da noite o sonho derradeiro… Vinha trazer às rosas o primeiro Beijo do Sol, nessa manhã tão fria! Um dia foi-se e não voltou… Mas quando A suspirar me ponho, contemplando, Sombria e triste, o meu jardim risonho… Digo, a pensar no tempo já passado: Talvez, ó coração amargurado, Aquele beija-flor fosse o teu sonho! -Auta de Souza- ~ Soneto 30 ~ 
Quando à corte silente do pensar Eu convoco as lembranças do passado, Suspiro pelo que ontem fui buscar, Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo olhar em lágrima, tão rara, Por amigos que a morte anoiteceu; Pranteio dor que o amor já superara, Deplorando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido, E de tais penas recontar as sagas, Chorando o já chorado e já sofrido,
Tornando a pagar contas todas pagas. Mas, amigo, se em ti penso um momento, Vão-se as perdas e acaba o sofrimento
- William Shakespeare - 
"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." (Clarice Lispector )
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 21h46
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Realidade  Em ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorjeio de ninho E a minha rubra boca apaixonada Teve frescura pálida do linho Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada E a minha cabeleira desatada Pôs a teus pés a sombra dum caminho Minhas pálpebras são cor de verbena, Eu tenho olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci Tens sido vida fora do meu desejo E agora, que te falo, que te vejo, Não sei se te encontrei... se te perdi... [Florbela Espanca]
Enquanto quis Fortuna… 
Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de um suave pensamento Me fez que seus versos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho co tormento, Para que seus enganos não dissesse. Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades! Quando lerdes Num breve livro casos tão diversos, Verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos! [Luís Vaz de Camões] Parte: não te separas!  Parte: não te separas! Que jamais Sairei de tua sombra. Por distante Que te vás, em meu peito, a cada instante Juntos dois corações batem iguais.
Não ficarei mais só. Nem nunca mais Dona de mim, a mão, quando a levante Deixará de sentir o toque amante Da tua, - ao que fugi. Parte: não sais!
Como o vinho, que às uvas donde flui Deve saber, é quanto faço e quanto Sonho, que assim também todo te inclui
A ti, amor! minha outra vida, pois Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto Em meus olhos são lágrimas de dois.
[Elizabeth Barrett Browning] 
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h33
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Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino, amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!
Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou!
- Florbela Espanca - Bilhete
O teu vulto ficou na lembrança guardado, vivo, por muitas horas!... e em meus olhos baços Fitei-te – como alguém que ansioso e torturado Tentasse inutilmente reavivar teus traços... Num relance te vi – depois, quase irritado Fugi, - e reparei que ao marcar os meus passos ia a dizer teu nome e a ver por todo lado o teu vulto... o teu rosto... e o clarão dos teus braços! Talvez eu faça mal em querer ser sincero, censurarás – quem sabe? Essa minha ousadia, e pensarás até que minto, e que exagero... Ou dirás, que eu falar-te nesse tom, não devo, que o que escrevo é infantil e absurdo, é fantasia, e afinal tens razão... nem sei por que te escrevo! -J.G. de Araujo Jorge -extraído do livro "Meu Céu Interior", 1ª edição, setembro,1934.- 
Quando Tornar a Vir a Primavera
Quando tornar a vir a Primavera Talvez já não me encontre no mundo. Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente Para poder supor que ela choraria, Vendo que perdera o seu único amigo. Mas a Primavera nem sequer é uma cousa: É uma maneira de dizer. Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes. Há novas flores, novas folhas verdes. Há outros dias suaves. Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. - Alberto Caeiro -
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 21h57
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Noite da Saudade 
A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura ... E nem sequer a bênção do luar A quis tornar divinamente pura ...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura ... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que és assim tão escura, assim tão triste?! É que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem ... Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ... Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" Horas de Saudade 
Vou de luar em rosto, descontente: Meus olhos choram lágrimas de sal. — Adeus, terras e moças do casal, — Adeus, ó coração da minha gente.
A hora da saudade é uma serpente: Quero falar, não posso, e antes que fale Ela enlaça-me a voz tão cordial Que as coisas mais me lembram fielmente.
Olhos de amora, e uma ave na garganta Para enfeitiçar a alma quando canta, Moças com sua parra de avental;
Graça, Beleza, um verso sem medida, A Saudade desterrou-me a vida ... Sou um eco perdido noutro vale.
Afonso Duarte, in "Episódio das Sombras" E desde então, sou porque tu és E desde então és sou e somos... E por amor Serei... Serás...Seremos... -Pablo Neruda - 
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 23h44
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O rogo 
Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia Sonhei um amor como jamais pudera Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora A vida toda, toda a poesia...E passava o inverno e não vinha, E passava também a primavera, E o verão de novo persistia, E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas. Faça estalar ali, com mão rude, O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida, E esta paixão ardente e desmedida, A hei perdido, Senhor fazendo versos. Afonsina Storni
Poema LXVI
Não te quero senão porque te quero e de querer-te a não querer-te chego e de esperar-te quando não te espero passa meu coração do frio ao fogo. Te quero só porque a ti te quero, te odeio sem fim, e odiando-te te rogo, e a medida de meu amor viageiro é não ver-te e amar-te como um cego. Talvez consumirá a luz de janeiro, seu raio cruel, meu coração inteiro, roubando-me a chave do sossego. Nesta história só eu morro e morrerei de amor porque te quero, porque te quero, amor, a sangue e fogo. Pablo Neruda

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?" -Fernando Pessoa-
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h43
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Cegueira Bendita 
Ando perdida nestes sonhos verdes De ter nascido e não saber quem sou, Ando ceguinha a tatear paredes E nem ao menos sei quem me cegou! Não vejo nada, tudo é morto e vago… E a minha alma cega, ao abandono Faz-me lembrar o nenúfar dum lago ´Stendendo as asas brancas cor do sonho… Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo E não ver nada nesse mar sem fundo, Poetas meus irmãos, que triste sorte!… E chamam-nos a nós Iluminados! Pobres cegos sem culpas, sem pecados, A sofrer pelos outros té à morte! [Florbela Espanca - A mensageira das violetas]
A Rua dos Cataventos 
Da vez primeira em que me assassinaram, Perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, a cada vez que me mataram, Foram levando qualquer coisa minha. Hoje, dos meu cadáveres eu sou O mais desnudo, o que não tem mais nada. Arde um toco de Vela amarelada, Como único bem que me ficou. Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada! Pois dessa mão avaramente adunca Não haverão de arracar a luz sagrada! Aves da noite! Asas do horror! Voejai! Que a luz trêmula e triste como um ai, A luz de um morto não se apaga nunca! [Mário Quintana] 
- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h57
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El engaño

Soy tuya, Dios lo sabe por qué, ya que comprendo Que habrás de abandonarme, fríamente, mañana, Y que, bajo el encanto de mis ojos, te gana Otro encanto el deseo, pero no me defiendo.
Espero que esto un día cualquiera se concluya, Pues intuyo, al instante, lo que piensas o quieres. Con voz indiferente te hablo de otras mujeres Y hasta ensayo el elogio de alguna que fue tuya.
Pero tú sabes menos que yo, y algo orgulloso De que te pertenezca, en tu juego engañoso Persistes, con aire de actor del papel dueño.
Yo te miro callada con mi dulce sonrisa, Y cuando te entusiasmas, pienso: no te des prisa, No eres tú el que me engaña; quien me engaña es mi sueño.
[Alfonsina Storni](1892 - 1938)
Soneto de amor
Não me peças palavras, nem baladas, nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, deixa cair as pálpebras pesadas, e entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio, nossas línguas se busquem, desvairadas... E que os meus flancos nus vibrem no enleio das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua... - unidos, nós trocaremos beijos e gemidos, sentindo o nosso sangue misturar-se...
Depois... - Abre os teus olhos, minha amada! Enterra-os bem nos meus; não digas nada... Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!
[José Régio, 1929, Portugal]

- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h09
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Soneto a duas mãos

A mão que me sustenta e eu sustento é mão capaz das vinte e cinco linhas e do selado azul de um requerimento ou doutras diligências comesinhas...
Habituada por secretarias, esperta, decidiu de um grave acento, a vírgulas guindou torpes cedilhas e mastigou papel, seu alimento...
Contraiu calos, revoltou-se às vezes, contra certos despachos, tão soezes que até o dedo auricular se ria...
Com dois dedos de aumento se curvava e logo, altiva, à esquerda se mostrava... Agora? Estão as duas na poesia...
[Alexandre O'Neill]
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
[Natália Correia]
Soneto
Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?
Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.
Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.
Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.
[José Carlos Ary dos Santos]
(...)Mas não era isso que eu queria te falar, não. Não era isso que eu tinha hoje pra te dar. Então se sente aqui do meu lado, e abre as orelhas, olhos e narinas. Que o que eu tinha pra te contar eu comecei a contar antes de você chegar, e você pegou a história pela metade... Que o que eu queria te dar de presente eu dei pro vento. Que o que você perdeu você acha ali, debaixo daquele pano, debaixo daquele pano ali.(...)[Tito de Andréa]

- Postado por: ßorbolet@ @zul às 22h37
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SONETO XIV Tradução: Manuel Bandeira

Ama-me por amor do amor somente Não digas: «Amo-a pelo seu olhar, O seu sorriso, o modo de falar Honesto e brando. Amo-a porque se sente
Minh'alma em comunhão constantemente Com a sua.» Porque pode mudar Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar Do tempo, ou para ti unicamente.
Nem me ames pelo pranto que a bondade De tuas mãos enxuga, pois se em mim Secar, por teu conforto, esta vontade
De chorar, teu amor pode ter fim! Ama-me por amor do amor, e assim Me hás de querer por toda a eternidade.
-Elizabeth Barrett Browning-
O fogo que na branda cera ardia,

O fogo que na branda cera ardia, vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo, se acendeu de outro fogo do desejo, por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia, da grande impaciência fez despejo, e remetendo com furor sobejo vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve [a] apagar seus ardores e tormentos na vista de que o mundo tremer deve.
Namoram se, Senhora, os Elementos de vós, e queima o fogo aquela neve que queima corações e pensamentos.
-Luis Vaz de Camões-

"Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo"
-Sophia de Mello Breyner Anderson -
PUDOR

Vens, e não sonho mais Quebra-se a onda do penedo austero. E o mar recua, sem haver sinais De que te quero.
-Miguel Torga-

- Postado por: ßorbolet@ @zul às 10h22
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DE JOELHOS

"Bendita seja a Mãe que te gerou." Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou Da tua vida o doce alvorecer... Bendita seja a Luz, que inundou De luz, a Terra, só para te ver...
Benditos sejam todos que te amarem, As que em volta de ti ajoelharem Numa grande paixão fervente e louca!
E se mais que eu, um dia, te quiser Alguém, bendita seja essa Mulher, Bendito seja o beijo dessa boca!!
-Florbela Espanca-
Eternamente sua
Serei eternamente sua pois, só tu conheces meu cheiro, meu gosto e meu corpo. Tu podes me magoar, me fazer calar e, ainda assim serei eternamente sua. Deixarei que beijes outras bocas, que toques outros corpos, que sintas o prazer de outros gemidos e que conheças o íntimo de outros seres. Deixarei. Para ter a certeza de que voltarás e que entenderás que quando beijaste outra boca – era a minha que tu querias, que quando tocaste outro corpo – era o meu que querias tocar, que quando sentiste o prazer de outro gemido – era o meu que querias sentir e, que, finalmente, quando conheceste o interior de outro ser – era o meu interior que tu buscavas em tuas infinitas procuras. Deixarei-te livre, para teres a certeza de que és meu e, assim voltar com a certeza de que ficarás. E então, depois de tantas buscas infindas suas, revelarei-te que estava a sua espera, assim como sempre estive. E seremos eternamente nós.
-Tatiana Mattos-
A tua voz na primavera

Manto de seda azul, o céu reflete Quanta alegria na minha alma vai! Tenho os meus lábios úmidos: tomai A flor e o mel que a vida nos promete!
Sinfonia de luz meu corpo não repete O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai! Iguala o sol que sempre às ondas cai, Sem que a visão dos poentes se complete!
Meus pequeninos seios cor-de-rosa, Se os roça ou prende a tua mão nervosa, Têm a firmeza elástica dos gamos...
Para os teus beijos, sensual, flori! E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, Só me exalto e sou linda para ti!
-Florbela Espanca-
Caixinha de música

impregno-me em ti como um perfume como quem veste a pele de odores ou a alma de cetins quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos laços abraços fitas ou fios transparentes em celofane brilhando uma prenda uma menina te traz vestida de lumes incandescendo incandescente te quer embrulhada em véus de seda e brocado encantada a serpente a flauta o mago senhor toca e quando me toca o corpo eu abro caixinha de música dentro com bailarina que dança
-Ana Mafalda Leite -
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- Postado por: ßorbolet@ @zul às 09h17
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